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Entrevista: Lourenço Vieira da Silva (criação das Escolas de Agronomia e de Veterinária)
Entrevistado: Lourenço José Tavares Vieira da Silva
Data de nascimento: 22/10/1942
Biografia: Prof. Lourenço José Tavares Vieira da Silva, engenheiro agrônomo, ex-secretário de Agricultura do Maranhão e figura central na consolidação do ensino agronômico no estado. Nas décadas de 1960 e 1970, foi o primeiro diretor da Escola de Agronomia do Maranhão, instituição que viria a se transformar no atual Centro de Ciências Agrárias (CCSA/UEMA). Ao longo de sua trajetória, acompanhou de perto processos fundamentais para a formação da UEMA e da Cidade Universitária Paulo VI.
A principal influência para sua escolha pela Agronomia, Lourenço destaca seu pai, o Engenheiro Agrônomo Deusdedit Cortêz Vieira da Silva, que também, anos depois, o icentivaria a criação da Faculdade de Agronomia do Maranhão.
Uma informação importante é que a avenida que dá acesso ao Campus UEMA de São Luís e ao bairro Cidade Operária foi nomeada Avenida Lourenço Vieira da Silva em reconhecimento à sua trajetória e contribuições para o desenvolvimento das ciências agrárias no Maranhão.
Assunto: Criação das Escolas de Agronomia e de Veterinária
Categoria: Memória Institucional
Data: 05 de novembro de 2025
Local: Entrevista conduzida presencialmente.
Entrevistado: Lourenço José Tavares Vieira da Silva
Entrevistador: Getulio Vitorino de Assunção Junior (Chefe da Assessoria de Gestão de Dados Estratégicos – ASSGDE/UEMA)
O presente registro integra o PORTAL MEMÓRIA UEMA |dados.uema.br/portal-memoria
A CRIAÇÃO DA ESCOLA DE AGRONOMIA ATUAL CURSO DE AGRONOMIA DO CCA/UEMA
A Escola de Agronomia do Maranhão foi criada em novembro de 1970 como desdobramento de um plano estratégico elaborado por Lourenço José Vieira da Silva, então secretário de Agricultura do Estado (SAGRIMA) em 1967, aos 24 anos de idade, alinhando-se ao governador José Sarney, que tinha o plano educacional de criar “uma faculdade por ano”.
A iniciativa surgiu da necessidade de reter talentos locais, já que a maioria dos maranhenses formados em Agronomia fora do estado não retornava. Um exemplo: dos 25 maranhenses colegas de Lourenço formados na Escola de Agronomia da Amazônia, em Belém (PA), apenas 9 voltaram ao Maranhão.
A proposta integrava um projeto mais amplo de desenvolvimento agrícola baseado em quatro pilares: fomento, pesquisa, ensino e formação de mão-de-obra, extensão rural e formação de mão de obra.
Lourenço incluiu no plano de reestruturação da secretaria, entregue em 9 dias ao governador Sarney, a criação das faculdades de Agronomia e de Medicina Veterinária, dentro do eixo “Ensino e Formação de Mão de Obra Qualificada”.
INFRAESTRUTURA DA ESCOLA DE AGRONOMIA
A viabilidade da escola foi assegurada pelo aproveitamento da infraestrutura pré-existente do CEPAMA (Centro de Experimentação e Pesquisa Agropecuária do Maranhão), da Secretaria de Agricultura do Estado, SAGRIMA, implantado na antiga Granja Modelo: uma área de cerca de 2.500 hectares onde hoje se localiza a Cidade Universitária Paulo VI e parte do bairro da Cidade Operária, em São Luís.
No local já funcionavam laboratórios (de solos, sementes e diagnóstico veterinário), biblioteca com mais de 2 mil títulos, coleções científicas, campos experimentais e aviários, que foram convertidos em salas de aula e setores administrativos posteriormente.
Pós-1974: Como presidente do INCRA, Lourenço direcionou recursos federais para obras como o anfiteatro zootécnico, onde hoje é o local do Centro de Convenções, o Hospital Veterinário, o Centro de Engenharia Rural e a Faculdade de Medicina Veterinária.
BASTIDORES DA CRIAÇÃO
Em 1969, para superar a preocupação inicial quanto aos custos, Lourenço organizou uma visita estratégica ao local, um “churrasco no CEPAMA”, que demonstrou ao governador Sarney a viabilidade do projeto, já que a infraestrutura necessária estava praticamente pronta, o que reduziria drasticamente os custos.
A IMPLANTAÇÃO DA ESCOLA DE AGRONOMIA
Criada em novembro de 1970, a Escola de Agronomia do Maranhão iniciou a transformação gradual do CEPAMA em um campus universitário, com infraestrutura existente, professores capacitados e custo mínimo, retendo talentos e tornando-se o embrião da FESM, atual UEMA, um marco do planejamento estratégico agrícola e educacional.
Aprovada em regime de urgência pela Assembleia Legislativa, a escola foi instituída por decreto que transferiu todo o patrimônio do CEPAMA para a nova instituição.
Na Assembleia, destacou-se a atuação decisiva do deputado Manoel Gomes, presidente da Casa.
Pelo acordo, a SAGRIMA cedeu técnicos, veículos, recursos financeiros para operação dos laboratórios, oficinas, além de pessoal administrativo e de campo. Em contrapartida, a Escola de Agronomia cedia seus laboratórios, oficinas, salas de aula e outras instalações, pois o CEPAMA passou a ser a sede da escola.
Faltavam, entretanto, recursos para o pagamento das horas-aula dos professores. O então secretário da Fazenda, Dr. Pedro Neiva de Santana, transferiu verbas no valor de Cr$ 100.000,00 para a Faculdade de Agronomia, o que possibilitou o início do funcionamento. Posteriormente, Pedro Neiva viria a assumir o governo do estado.
Lourenço foi o primeiro diretor da Escola de Agronomia, mas renunciou rapidamente para viabilizar um convênio essencial para a Faculdade de Agronomia e para a Secretaria de Agricultura, já que também era secretário da SAGRIMA. O convênio foi assinado com seu sucessor, José Mariano dos Santos. Pelo acordo, a SAGRIMA cedia técnicos, veículos, campo e apoio administrativo, enquanto a Faculdade de Agronomia garantia os seus laboratórios e Centros de Engenharia para a Secretaria de Agricultura. Por outro, a Secretaria da Fazenda garantiu o pagamento das horas-aula dos professores.
CORPO DOCENTE E TÉCNICO-ADMINISTRATIVO
Origem e Seleção
Recrutamento Interno: A maioria dos docentes iniciais veio dos quadros técnicos da própria SAGRIMA, que Lourenço chefiava. Já eram engenheiros agrônomos e veterinários atuando nos departamentos e no CEPAMA.
Capacitação Planejada: Os técnicos foram selecionados e direcionados para áreas específicas do conhecimento, como fitotecnia, zootecnia, entomologia e engenharia rual, de acordo com suas aptidões e as necessidades do currículo.
“Faltavam, entretanto, recursos financeiros para pagar as horas-aula dos professores. Fui até o secretário da Fazenda, Dr. Isidoro Vieira de Santana, que destinou recursos da SEFAZ para esse objetivo. No mandato seguinte, o Dr. Pedro Neiva assumiu o governo do estado.”
Formação e Aprimoramento
Para elevar o nível acadêmico dos quadros, a SAGRIMA investiu na formação contínua dos futuros professores:
Convênios Nacionais: Estabelecidos com instituições de destaque, como Viçosa (MG), Fortaleza (CE), Pernambuco, Rio Grande do Sul e a Escola Nacional de Agronomia, no Rio de Janeiro.
Mestrado e Treinamento: Técnicos foram enviados para cursos de mestrado e especialização nessas universidades, retornando com a qualificação necessária para compor o corpo docente da nova faculdade.
Exemplo citado: Mânlio, um profissional com uma “cabeça privilegiada” em fitotecnia, foi enviado aos Estados Unidos para cursar mestrado e doutorado. Teve carreira de destaque, inclusive na ENA (Escola Nacional de Agronomia do Rio de Janeiro), após seu retorno.
Quantidade Inicial e Nomes Mencionados
Número Aproximado: Lourenço estima que a escola iniciou com cerca de 40 a 50 professores, contando com a futura Veterinária.
Colaboradores-chave:
José Mariano dos Santos: Segundo diretor da Escola de Agronomia.
Elias Sefer: Diretor e professor de Entomologia em Belém; modelo de administrador público para Lourenço.
Severino Pessoa: Veterinário pernambucano e se tornou o primeiro diretor da Faculdade de Medicina Veterinária.
Maria Adélia Maranhão Waquim: Implantou o Laboratório de Diagnóstico Veterinário.
José Carlos Araújo: Chefe do Laboratório de Solos e seu planejador.
Evandro Ferreira da Costa: Colaborador técnico destacado da Secretaria.
Dupla Jornada: Muitos docentes atuavam simultaneamente na SAGRIMA e na escola, graças ao convênio.
Remuneração: O pagamento foi garantido pela transferência de recursos da Secretaria da Fazenda, sob Pedro Neiva de Santana. Segundo Lourenço, o salário oferecido era o mais alto do país para a categoria, o que ajudou a atrair e fixar talentos.
“O Tesouro Estadual destinou mais de Cr$ 100 mil cruzeiros para as horas-aula dos docentes da Escola de Agronomia.”
A base técnica da SAGRIMA foi transformada em base acadêmica por meio de um programa intenso de formação e atração de profissionais qualificados.
Outros nomes importantes: Rufino Fernandes (vice-diretor), José Trajano Brandão Martins (presidente da comissão organizadora), Djalma Nina Rodrigues, Evandro Ferreira das Chagas, Antônio Rodrigues Nunes, Iraci Paiva Coelho, João Damasceno Barbosa Cordeiro (Engenheiro Agrônomo), Avelino de Oliveira Serra, Oscar Wilson de Cantúaria Belo, João Rebelo Vieira.
A PRIMEIRA TURMA DE AGRONOMIA
A primeira turma ingressou via vestibular, com 25 vagas, acesso gratuito e transporte exclusivo por meio da linha de ônibus “Agronomia”, posteriormente “FESM Cohapan”.
A Escola de Agronomia se tornou o núcleo fundador do futuro campus da UEMA, marcando a primeira experiência bem-sucedida de formação de agrônomos no Maranhão, ao contrário das tentativas anteriores, como a da década de 1940, que não chegaram a formar turmas.
A escola permanece como marco de planejamento integrado, inovação institucional e compromisso com o desenvolvimento regional.
A ESCOLA DE VETERINÁRIA ATUAL CURSO DE MEDICINA VETERINÁRIA DO CCA/UEMA
Contexto e Motivação
A criação da Escola de Veterinária foi uma evolução natural do plano educacional e agropecuário que culminou na Escola de Agronomia. Ela já estava prevista no mesmo projeto entregue por Lourenço a Sarney, dentro do pilar “Ensino e Formação de Mão de Obra”.
Escassez de Profissionais
Diferente da Agronomia, havia escassez crítica de médicos-veterinários.
Quando Lourenço assumiu a SAGRIMA, o Maranhão contava com apenas 8 veterinários, 3 estaduais (Damasceno, Rocha e Góes) e 5 federais (incluindo o Dr. Raimundo Valle).
Por isso, a prioridade foi criar primeiro a Escola de Agronomia, para formar os quadros necessários antes de iniciar o curso de Medicina Veterinária.
A CRIAÇÃO DO PARQUE INDEPENDÊNCIA
A criação do Parque Independência foi uma iniciativa de Lourenço Vieira da Silva como parte do projeto do Centro de Ciências Agrárias.
Objetivo: Integrar ensino, lazer, cultura e educação ambiental, aproximando o campus da comunidade.
Complemento ao Campus: Área de uso misto para estudo, experimentação e lazer.
Nome e Data: Inaugurado em 08/09/1973, durante a comemoração dos 150 anos da Adesão do Maranhão à Independência do Brasil.
Visão Inovadora: Planejado para funcionar 365 dias por ano, oferecendo atividades abertas à população.
CONSELHO PARA A GERAÇÃO ATUAL
“A luta não está terminada, mas está a exigir de todos que nela acreditam, de todos que por ela se interessam, de todos que nela ingressaram ou venham a ingressar, uma maior soma de esforços e dedicação.”
Lourenço Vieira da Silva, 04/11/2025
“Nós nunca devemos desistir dos nossos ideais. Então, nós temos que ter perseverança, lutar, batalhar e chegar ao que nós sonhamos, ao que nós achamos bom para o Estado. Essa é uma luta permanente que nós nunca devemos deixar. E o Maranhão nós temos que ter consciência. É um Estado da agropecuária.”
Lourenço Vieira da Silva, 04/11/2025
PORTAL MEMÓRIA UEMA
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