1. Raízes e Influência Familiar: O Legado de Ramiro Baptista Ferreira
Identificação pessoal e origens familiares: Francisco de Salles Baptista Ferreira nasceu em 2 de fevereiro de 1936, em São Luís, Maranhão, filho do engenheiro civil Ramiro Baptista Ferreira e de Anna de Sousa Baptista Ferreira. Seu pai exerceu papel relevante na engenharia nacional, tendo sido responsável por grandes obras de infraestrutura, entre elas a ponte rodoferroviária sobre o rio Parnaíba, que interliga Timon (MA) a Teresina (PI) — obra estratégica para a integração regional entre Maranhão e Piauí. Desde a infância, Francisco esteve inserido em um ambiente técnico e intelectual fortemente ligado à engenharia, o que influenciou decisivamente sua escolha profissional.
2. Base Intelectual no Maranhão: Formação no Colégio São Luís e no Liceu Maranhense
Formação escolar e base intelectual no Maranhão: realizou seus estudos iniciais em instituições tradicionais de São Luís, cursando o ginásio no Colégio São Luís e o curso científico no Liceu Maranhense, escola responsável pela formação de parte significativa da elite intelectual maranhense ao longo da história. Esse período foi fundamental para sua formação humanística e científica, antecedendo sua saída do estado para cursar o ensino superior.
3. Formação Universitária: A Dupla Especialização em Minas Gerais
Formação universitária em Minas Gerais: entre 1955 e 1959, Francisco cursou Engenharia Civil na Escola de Engenharia de Belo Horizonte, então vinculada à Universidade de Minas Gerais (atual UFMG). Em 18 de dezembro de 1959, concluiu também o curso de Engenharia Sanitária, uma especialização extremamente rara no Brasil naquele período, o que o colocou entre os poucos engenheiros sanitaristas em atuação no país. Essa formação dupla — engenharia civil e sanitária — seria decisiva para sua atuação futura, tanto no saneamento básico quanto no ensino superior.
4. Primeiras atuações profissionais e o saneamento público (1962 a 1966)
De volta ao Maranhão, Francisco iniciou sua trajetória no serviço público técnico, exercendo funções estratégicas:
• Chefe do Setor de Engenharia Sanitária do Departamento Nacional de Obras Rurais (1962);
• Diretor do Departamento de Águas e Esgotos de São Luís (1962-1966);
• Superintendente de Estado dos Negócios de Água e Obras Públicas do Maranhão (1964-1966).
Nesse período, teve contato direto com a infraestrutura herdada do sistema implantado por uma empresa estrangeira inglesa, que havia estruturado as primeiras redes de água e esgoto da capital maranhense nas décadas anteriores.
5. Fundação da CAEMA e estruturação do saneamento estadual (1960-1974)
Francisco foi membro fundador e primeiro diretor-presidente da Companhia de Águas e Esgotos do Maranhão – CAEMA. Convidado pelo governo estadual de José Sarney, assumiu a missão quando a companhia ainda não possuía estrutura física, quadro técnico nem modelo operacional. Contou com o apoio do governo do estado, que garantiu recursos, frota de veículos e autonomia administrativa. Como primeira providência, realizou missão técnica ao estado do Paraná, referência nacional em saneamento, de onde trouxe métodos de planejamento, organização e execução. A primeira sede administrativa da CAEMA funcionou em um imóvel alugado na Rua 7 de Setembro, no Centro de São Luís. Durante a implantação da companhia:
• Estruturou equipes técnicas;
• Contratou engenheiros de outros estados, como Pará e Minas Gerais;
• Implantou cronogramas de trabalho e planejamento operacional;
• Consolidou a CAEMA como política pública permanente, evitando que a instituição se tornasse temporária.
Seu trabalho continuou contando com o apoio do governador Pedro Neiva de Santana.
6. Concepção da Escola de Engenharia do Maranhão (1967)
A criação da Escola de Engenharia do Maranhão, atual curso de Engenharia Civil da UEMA, foi idealizada em 1967, a partir de iniciativa conjunta entre Francisco de Salles Baptista Ferreira, Haroldo Olympio Lisboa Tavares, então secretário de Obras e Viação Pública do Estado, e o também engenheiro José Ribamar Araújo. Segundo o próprio entrevistado, a ideia surgiu de forma direta e pessoal, quando Haroldo o convidou para “fazer uma escola de engenharia”, convite prontamente aceito. Haroldo atuou como idealizador e, junto com Francisco e José Ribamar, assumiu o papel de executor, organizador e articulador da instituição.
Francisco relata que a criação da Escola de Engenharia do Maranhão surgiu da necessidade concreta de formar engenheiros no próprio estado, evitando que estudantes maranhenses precisassem se deslocar para centros como Belo Horizonte ou Belém, muitos dos quais não retornavam após a graduação. Enquanto Haroldo Tavares atuava como formulador das ideias e articulador político, coube a Francisco a organização prática da escola: definição do funcionamento acadêmico, recrutamento do corpo docente, estruturação curricular e, junto com José Ribamar, condução administrativa. Ele passou a contatar engenheiros com vocação para o magistério, muitos deles servidores de órgãos técnicos estaduais, que conciliavam a atuação profissional com a docência, formando o primeiro quadro de professores.
A primeira sede da Escola de Engenharia funcionou em prédio público na região do Bacanga, fora do campus universitário, em área próxima à ponte de acesso à Av. dos Portugueses, em condições ainda modestas, mas suficientes para o início das atividades. Francisco destaca que, apesar das limitações iniciais, a escola contou, desde cedo, com laboratórios e biblioteca, ainda que em escala reduzida, e que a instituição nunca retrocedeu, mantendo um processo contínuo de crescimento e consolidação. Francisco enfatiza que a Escola de Engenharia do Maranhão foi a primeira do estado, tornando-se um marco estruturante para o desenvolvimento técnico, científico e institucional do Maranhão e servindo de base para a posterior integração das escolas isoladas, que culminaria na criação da Federação das Escolas Superiores do Maranhão (FESM) e, posteriormente, da Universidade Estadual do Maranhão.
7. Implantação, corpo docente e primeira sede da Escola de Engenharia
Francisco passou a recrutar engenheiros com vocação para o magistério, muitos deles servidores da Secretaria de Obras e Viação, da CEMAR e de outros órgãos técnicos. Os professores conciliavam as aulas com as atividades técnicas durante o dia, no período letivo. A Escola de Engenharia do Maranhão tornou-se:
• O primeiro curso de Engenharia Civil do estado;
• Uma alternativa à migração de estudantes para Belém (PA) e Belo Horizonte (MG);
• Um instrumento de fixação de quadros técnicos no Maranhão.
8. Direção de Ensino e consolidação acadêmica (1968-1974)
Desde a fundação até 1974, Francisco exerceu o cargo de diretor de Ensino da Escola de Engenharia do Maranhão, acumulando também a função de professor. Nesse período, liderou o complexo processo de reconhecimento do curso de Engenharia Civil pelo MEC, reunindo pessoalmente a documentação dos docentes e adequando o curso às exigências legais, o que resultou no Parecer CESu nº 820, de 6 de junho de 1973, que oficializou o reconhecimento do curso.
9. Criação da FESM e presidência (1974)
Com a existência de três escolas isoladas, Engenharia, Agronomia (criada por Lourenço Vieira da Silva) e Administração (criada pelo professor Cabral), surgiu a necessidade de integração institucional. Assim, foi criada a Federação das Escolas Superiores do Maranhão – FESM, precursora da atual Universidade Estadual do Maranhão. Francisco de Salles Baptista Ferreira foi escolhido como o primeiro presidente da FESM, exercendo o cargo durante 1974, em reconhecimento à sua liderança técnica, acadêmica e administrativa.
10. O primeiro computador do Maranhão (anos 1970)
Francisco relata que a aquisição do primeiro computador IBM para a Escola de Engenharia do Maranhão, no início da década de 1970, representou um marco histórico para o ensino superior e para a tecnologia no Maranhão. Tratava-se de um IBM 1130, mencionado equivocadamente como IBM 101, equipamento de grande porte, classificado à época como computador científico, utilizado principalmente para cálculos complexos de engenharia, matemática e planejamento técnico. Segundo seu depoimento, a iniciativa da compra partiu do engenheiro Haroldo Tavares, descrito por Francisco como o principal idealizador das inovações, enquanto a ele coube, mais uma vez, o papel de executor.
Francisco explica que a instalação do IBM exigiu uma série de adaptações físicas e técnicas na Escola de Engenharia, especialmente no que se refere à climatização, já que o computador só funcionava corretamente em ambiente com ar-condicionado permanente, algo incomum em instituições públicas locais naquele período. Também foi necessária a adequação do espaço físico e da operação elétrica, além da capacitação de pessoal. O equipamento chegou acompanhado de técnicos especializados vindos de Belo Horizonte, responsáveis pela montagem, pelos testes iniciais e pela orientação operacional.
Francisco recorda que a chegada do computador causou grande impacto e curiosidade, tanto na comunidade acadêmica quanto nas autoridades estaduais. Um dos episódios mais emblemáticos narrados por Francisco foi a apresentação do computador ao governador Pedro Neiva de Santana. Por orientação de Haroldo Tavares e com sua supervisão direta, o IBM foi programado para emitir uma saudação verbal ao governador. O episódio causou forte impressão, simbolizando a entrada do Maranhão na era da computação e reforçando o caráter inovador da Escola de Engenharia.
Francisco destaca que o IBM 1130 não foi adquirido apenas para fins didáticos, mas também para apoiar atividades administrativas, cálculos técnicos e projetos governamentais, tornando-se o embrião da informática pública no Maranhão. Posteriormente, o equipamento foi transferido para uma estrutura própria, consolidando a separação entre o uso acadêmico e o uso governamental da computação. Em seu relato, Francisco enfatiza que a compra do IBM reflete a visão de futuro da Escola de Engenharia do Maranhão, que, mesmo com recursos limitados, buscou se alinhar às práticas mais avançadas do país.
11. Atuação nacional e outros cargos estratégicos de 1974 em diante
• Presidente da CAESB – Companhia de Águas e Esgotos de Brasília (1974-1979);
• Funções técnicas e de planejamento na Rede Ferroviária Federal S/A;
• Coordenador do Programa de Mobilização Energética da PORTOBRÁS;
• Secretário de Desenvolvimento Rural e Irrigação do Maranhão (1982-1985);
• Secretário-Executivo do Conselho Interministerial do Programa Grande Carajás (1985-1989);
• Presidente da Academia Maranhense de Ciências (2008-2011);
• Presidente da Comissão Central de Licitação (1995-2006);
• Presidente da Comissão Central Permanente de Licitação (2011-2014).
12. Vida familiar e vínculos históricos
Francisco é casado com Sonia Tereza de Carvalho Baptista Ferreira, filha do general Arthur Carvalho, combatente da Segunda Guerra Mundial e figura de destaque na vida política do Maranhão. O casal tem duas filhas, Frânia de Carvalho Ferreira e Flávia de Carvalho Ferreira, e três netos.
13. Conselhos finais e legado institucional
Ao encerrar a entrevista, realizada em 12 de janeiro de 2026, em sua residência no bairro Renascença, em São Luís, Francisco deixou um depoimento de forte conteúdo ético e humano. Defendeu que o trabalho público e acadêmico deve ser realizado com vocação, responsabilidade e paixão, afirmando que nenhuma instituição prospera quando o trabalho é feito apenas por obrigação.
14. Importância para o Portal Memória UEMA
O depoimento de Francisco de Salles Baptista Ferreira constitui registro fundacional da memória institucional da UEMA, documentando a criação da Escola de Engenharia, da FESM, da política estadual de saneamento e da introdução da informática no Maranhão. Trata-se de um dos mais importantes relatos históricos sobre a origem da Universidade Estadual do Maranhão.