Entrevista: César Pires

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Entrevista com César Henrique Santos Pires

Relação com a história da UEMA: César Henrique Santos Pires tem uma relação histórica e ampla com a UEMA. Ele foi professor do curso de Medicina Veterinária, chefe de Departamento, pró-reitor de Administração, pró-reitor de Graduação e reitor por dois mandatos. Sua passagem pela Universidade é associada a marcos importantes, como a criação do primeiro mestrado da UEMA, a implantação do NEAD, atual UemaNet, a interiorização de programas de formação docente, a modernização tecnológica e ações de inclusão e acessibilidade.

Biografia: César Henrique Santos Pires é professor do curso de Medicina Veterinária da UEMA – Universidade Estadual do Maranhão. Graduou-se em Medicina Veterinária pela Universidade Estadual do Ceará – UECE e em Direito pela Universidade Federal do Ceará – UFC. Iniciou sua trajetória profissional no Maranhão na área da agricultura e, posteriormente, ingressou na UEMA, onde construiu uma carreira acadêmica e administrativa marcada pela atuação no ensino, na gestão universitária e na expansão institucional.

Na UEMA, exerceu funções como chefe de Departamento, pró-reitor de Administração, pró-reitor de Graduação e reitor por dois mandatos. Sua gestão é associada a importantes marcos da Universidade, como a criação do primeiro mestrado da UEMA, a implantação do NEAD – Núcleo de Educação a Distância, atual UemaNet, a interiorização de programas de formação docente, a ampliação da infraestrutura universitária, a modernização tecnológica, a estruturação de campi e cursos no interior do Maranhão e a valorização da qualificação acadêmica.

Também atuou na Polícia Militar do Maranhão, onde chegou ao posto de major e contribuiu para a criação da Cavalaria e do Canil. Na vida pública, foi deputado estadual, secretário de Estado da Educação, gerente da Região Tocantina, presidente e vice-presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária e presidente da Sociedade Maranhense de Medicina Veterinária.

 

DADOS DA ENTREVISTA

Assunto: Trajetória da UEMA no final dos anos 90 e início dos anos 2000.

Categoria: Memória Institucional

Data da entrevista:  12 de maio de 2026.

Local: Entrevista conduzida presencialmente em sua residência no bairro do Renascença, São Luís-MA.

Entrevistado: César Henrique Santos Pires

Data de nascimento: 13 de outubro de 1956

Entrevistador: Getulio Vitorino de Assunção Junior (Chefe da Assessoria de Gestão de Dados Estratégicos – ASSGDE/UEMA)

O presente registro integra o PORTAL MEMÓRIA UEMA |dados.uema.br/portal-memoria

 

RESUMO DA ENTREVISTA

1. Formação, origem profissional e chegada a São Luís

César Pires é natural de Codó-MA e formou-se em Medicina Veterinária pela Universidade Estadual do Ceará – UECE. Também cursou Direito na Universidade Federal do Ceará – UFC. Segundo ele, a Medicina Veterinária foi sua verdadeira paixão e a base de toda a sua trajetória profissional, acadêmica e política. O Direito, por sua vez, surgiu como uma espécie de resposta ao desejo de seu pai, que queria vê-lo formado nessa área.

Ele afirma que chegou a São Luís em 1982. Antes de se vincular à UEMA, trabalhou na Secretaria de Agricultura, em Codó, por influência de seu pai, que havia conseguido para ele uma oportunidade profissional. Apesar de considerar o cargo confortável, percebeu que aquele caminho poderia levá-lo à estagnação. A partir dessa percepção, decidiu vir para São Luís em busca de novas possibilidades.

Sua entrada na UEMA ocorreu por meio do curso de Medicina Veterinária, após contato com Francisco Cordeiro Damasceno, colega veterinário. A partir desse vínculo, começou a lecionar e iniciou a trajetória que, anos depois, o levaria à Reitoria da Universidade.

2. A UEMA no início da década de 1980: infraestrutura limitada e isolamento acadêmico

Ao recordar sua chegada à UEMA, César Pires descreve uma instituição ainda bastante limitada em termos de infraestrutura física, bibliográfica e tecnológica. Ele afirma que, quando começou a atuar na Universidade, o bondinho do campus já estava desaparecendo. Não chegou a utilizá-lo, mas lembra que a estrutura remanescente ainda existia como vestígio de uma época anterior.

O deslocamento para dar aulas era feito em ônibus da própria UEMA. A infraestrutura, segundo ele, era precária, mas a percepção dessa precariedade era atenuada pelo isolamento informacional da época. Como havia pouca comunicação com outras realidades acadêmicas e pouca circulação de informação, muitos professores e estudantes não tinham plena dimensão das carências existentes.

Um dos pontos mais destacados por ele foi a dificuldade de acesso à bibliografia especializada. Para adquirir livros de Medicina Veterinária, era necessário fazer pedidos a editoras, como a Saraiva, e aguardar meses até a chegada do material. Muitas vezes, quando o livro finalmente chegava, já continha conteúdo defasado em relação à produção científica mais recente.

Para César Pires, a ausência de infraestrutura intelectual era ainda mais grave do que a precariedade física. Ele observa que, sem bibliotecas atualizadas, livros especializados e instrumentos adequados de formação, o desenvolvimento acadêmico ficava comprometido. Naquele contexto, a Medicina Veterinária ainda era vista de forma limitada por parte da sociedade, muitas vezes associada apenas ao cuidado básico de animais, sem o reconhecimento atual de sua importância para a saúde pública, a produção animal e a integração entre saúde humana, saúde animal e questões ambientais.

 

3. Medicina Veterinária e Hospital Veterinário

A área de Medicina Veterinária ocupa lugar central na memória de César Pires. Ele relata que, no início, as aulas práticas eram realizadas com grandes limitações estruturais. O espaço destinado ao atendimento de pequenos animais era restrito, e não havia condições adequadas para sedação, contenção ou cirurgia de animais de grande porte.

Ele recorda episódios em que professores e alunos precisavam se deslocar para áreas externas, em condições improvisadas, para realizar procedimentos em equinos e outros animais de grande porte. Um dos relatos mais marcantes envolve uma cirurgia de campo em que, pela ausência de estrutura adequada, as vísceras de um equino extravasaram do abdome e tiveram de ser recolocadas, com risco elevado de infecção e complicações.

Durante sua gestão como reitor, segundo o Prof. César Pires, foi construída a estrutura que deu base ao atendimento de grandes animais no Hospital Veterinário da UEMA. Ele afirma ter lançado a pedra fundamental e conduzido a implantação da estrutura física que, posteriormente, foi ampliada com novos equipamentos, exames de imagem, exames laboratoriais e tecnologias mais modernas.

Para ele, o crescimento do Hospital Veterinário simboliza a evolução da própria Medicina Veterinária na UEMA. O que antes era marcado por improvisação, escassez e limitações técnicas passou a contar com estrutura laboratorial, atendimento especializado e maior reconhecimento acadêmico e social.

 

4. Trajetória administrativa na UEMA antes da Reitoria

Antes de chegar ao cargo de reitor, o Prof. César Pires exerceu diferentes funções administrativas na UEMA. Ele menciona que iniciou como chefe de Departamento, aproximadamente em meados da década de 1980, após a saída da professora Adélia. Posteriormente, foi pró-reitor de Administração e também pró-reitor de Graduação.

Essas experiências foram importantes para sua formação como gestor universitário. Como pró-reitor, teve contato direto com os desafios administrativos, acadêmicos e financeiros da instituição. Também participou de processos de organização interna, reconhecimento de cursos e expansão do Programa de Capacitação Docente – PROCAD.

Ele afirma que, ainda antes da Reitoria, já havia desenvolvido uma forma própria de gestão baseada na escuta de pessoas experientes. Chamava informalmente esse apoio de ATI, “assessoria da terceira idade”, referindo-se a servidores e colaboradores mais antigos, cuja experiência acumulada era utilizada como fonte de orientação para decisões administrativas. Para ele, a experiência é fundamental, mas tem o problema de chegar tarde; por isso, procurava antecipar aprendizados ouvindo quem já havia vivido situações semelhantes.

 

Cezar Henrique Santos Pires

5. Chegada à Reitoria: disputa, apoio estudantil e formação da equipe — 1996 a 1999

Prof. César Pires descreve sua chegada à Reitoria como um momento politicamente difícil. O processo ocorreu após um período de intervenção e indefinição institucional. Relata que houve uma exigência de avaliação de projetos para a Universidade e que reuniu um grupo de colaboradores da UEMA para elaborar uma proposta de gestão.

Ele afirma que sua candidatura recebeu forte apoio de estudantes ligados ao PROCAD. Segundo seu relato, esses estudantes tiveram papel decisivo na mobilização que levou à consolidação de sua nomeação após ter vencido a eleição para reitor. Menciona, inclusive, a ocupação da Reitoria como uma forma de pressão em defesa de sua escolha.

Ao assumir, afirma ter encontrado um ambiente pouco prestigiado institucionalmente, chegando a mencionar que sua posse contou com pouquíssimas pessoas. Ainda assim, montou sua equipe e iniciou uma gestão que, segundo ele, se consolidou com o tempo.

Prof. César Pires destaca que, em sua administração, passaram por cargos importantes nomes que depois também ocupariam posições de destaque na UEMA, como Waldir Maranhão Cardoso, Gustavo Pereira da Costa e José Augusto Silva Oliveira. Ele demonstra orgulho ao afirmar que vários gestores posteriores tiveram participação em seu ambiente administrativo, como pró-reitores, diretores ou colaboradores.

Também ressalta que sua gestão foi marcada pela transparência. Segundo ele, saiu da Universidade sem débitos ou pendências junto a órgãos de controle, como TCE – Tribunal de Contas do Estado, TCU – Tribunal de Contas da União, CGE – Controladoria-Geral do Estado e CGU – Controladoria-Geral da União.

6. Reeleição e continuidade administrativa — 2000 a 2002
Com a mudança da legislação da UEMA que permitiu recondução para o cargo de reitor, o Prof. César Pires lançou sua candidatura e afirma que obteve 78% de aprovação no processo de escolha, o que considera uma demonstração de reconhecimento da comunidade universitária em relação à sua primeira gestão. A reeleição, em sua visão, permitiu dar continuidade a projetos estruturantes iniciados no primeiro mandato.

 

7. Regularização e reconhecimento de cursos
Um dos temas mais relevantes da entrevista é a regularização acadêmica de cursos da UEMA. Prof. César Pires relata que, ao assumir funções de gestão, havia cursos que funcionavam apenas com autorização, mas sem reconhecimento formal. Isso colocava em risco a validade dos diplomas e a continuidade das formações.
Ele menciona especialmente os cursos de Pedagogia em São Luís e em campi como Caxias, Bacabal e Imperatriz, além do curso de Administração. Segundo ele, esses cursos foram reconhecidos durante sua atuação, com apoio de colaboradores como Bastos Ramos, que posteriormente presidiu o Conselho Estadual de Educação – CEE.
Outro caso destacado é o Curso de Formação de Oficiais – CFO, que não era autorizado nem reconhecido como formação superior e em sua gestão, teria sido reconhecido como curso de nível superior. Ele relata que o CFO tinha natureza peculiar, pois funcionava mais como concurso público do que como vestibular tradicional, já que os alunos ingressavam em uma carreira militar.

 

8. Arquitetura, Centro Histórico e ocupação urbana

Prof. César Pires também menciona ações relacionadas ao curso de Arquitetura. Segundo ele, sua gestão teve participação na transferência do curso da Cidade Universitária Paulo VI para o atual prédio localizado na Rua da Estrela, no Centro de São Luís, onde existia um auditório com seu nome.
A intenção, conforme relatado, era não apenas resolver uma questão acadêmica, mas também contribuir para a ocupação urbana da área no Centro Histórico de São Luís. Ele defendia que a presença de estudantes nos três turnos ajudaria a dar vida ao Centro, reduzindo o isolamento e estimulando o uso qualificado do espaço urbano.
Além disso, afirma que foram realizadas ações de regularização do curso, concurso público e capacitação docente, incluindo um mestrado, posteriormente descontinuado, voltado à qualificação de professores da área de Arquitetura. Segundo ele, as iniciativas relacionadas à Arquitetura e à formação de seu corpo docente serviram de base para avanços posteriores.


9. Primeiro mestrado da UEMA e início da pós-graduação
Prof. César Pires atribui à sua gestão a criação do primeiro mestrado da UEMA, o mestrado em Agroecologia, no Centro de Ciências Agrárias – CCA/UEMA. Ele afirma que as bases já vinham sendo preparadas, mas que sua administração deu forma institucional ao projeto.
O entrevistado considera esse um dos marcos mais importantes de sua passagem pela Universidade. A criação do primeiro mestrado representou o início efetivo da pós-graduação stricto sensu na UEMA e abriu caminho para o doutoramento e para a consolidação da pesquisa acadêmica.
Ele também relata experiências de formação em parceria com instituições e professores estrangeiros, especialmente cubanos.

 

10. Parcerias com Cuba
Prof. César Pires menciona a presença de professores altamente qualificados, inclusive trilíngues e com formação avançada, atuando em campi do interior. Um dos episódios lembrados envolve um professor cubano que chegou com pouquíssimos pertences e precisou receber roupas, ferro de passar e até bicicleta, pois não estava acostumado a se deslocar de carro.
Segundo Prof. César Pires, aproximadamente 120 pessoas participaram de processos de formação em nível de mestrado em iniciativas associadas à sua gestão. Posteriormente, esses esforços serviram de base para ações de doutoramento e qualificação docente.

11. Parcerias para capacitação docente

Além do mestrado em Agroecologia, Prof. César Pires menciona parcerias com instituições como a Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e a Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, voltadas à capacitação de professores da UEMA.

Essas parcerias tinham como objetivo qualificar o corpo docente da Universidade e criar massa crítica para a consolidação dos cursos. Em alguns casos, os mestrados eram voltados para públicos internos específicos, ou seja, não se tratava necessariamente de programas permanentes abertos ao público externo, mas de estratégias de qualificação institucional.

A formação interna dos docentes da instituição aparece, na entrevista, como um eixo central de sua visão administrativa. Para ele, a Universidade só poderia avançar se fortalecesse seu próprio quadro intelectual.

 

12. PROCAD – Programa de Capacitação Docente e interiorização da formação superior

O PROCAD – Programa de Capacitação Docente é apresentado pelo Prof. César Pires como uma das ações de maior impacto social e educacional. Segundo ele, o programa começou antes de sua gestão como reitor, quando ainda atuava como pró-reitor de Administração, mas foi em sua administração que ocorreu a interiorização.

O objetivo era levar formação superior a professores que atuavam no interior do Maranhão, especialmente em um contexto de novas exigências decorrentes da LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996. Prof. César Pires afirma que, naquele período, muitos docentes do ensino fundamental ainda não possuíam curso superior e que o Maranhão tinha baixo percentual de pessoas com terceiro grau, ou seja, com nível superior.

Ele recorda com emoção as formaturas e os discursos de alunos do PROCAD no interior, muitos dos quais tiveram contato, pela primeira vez, com autores e referências fundamentais da educação, como Paulo Freire e Vigotski. Para o entrevistado, o PROCAD não apenas formou professores, mas transformou trajetórias pessoais, elevou a autoestima profissional e ampliou as possibilidades educacionais no Estado.

Mais tarde, ao assumir a Secretaria de Estado da Educação – SEDUC, Prof. César Pires afirma ter promovido servidores que já haviam obtido formação superior, mas continuavam recebendo como se tivessem apenas ensino médio. Ele associa essa medida à continuidade do impacto social do PROCAD.

13. Fundação de apoio e agilidade administrativa

Outro ponto abordado é a criação de uma fundação de apoio, mencionada pelo entrevistado como instrumento para dar maior agilidade à gestão de recursos, projetos, pagamentos e convênios.

Prof. César Pires relata que se inspirou em experiências de outras universidades, como a Universidade de Campinas – Unicamp, onde fundações eram utilizadas para apoiar departamentos, projetos e atividades de pesquisa. Segundo ele, a UEMA precisava de um mecanismo mais ágil para gerir recursos, especialmente em iniciativas como o PROCAD e projetos técnicos com especialistas externos.

Ele cita como exemplo a necessidade de contratar profissionais qualificados para estudos relacionados ao impacto de afluentes do Rio Itapecuru. Pela via administrativa convencional, os pagamentos e processos eram lentos, o que dificultava a execução dos projetos. A fundação deu funcionalidade e celeridade à Universidade.

14. NEAD – Núcleo de Educação a Distância e origem do UemaNet

A criação do NEAD – Núcleo de Educação a Distância, atual UemaNet, é apresentada como um dos grandes marcos de sua gestão. César Pires afirma que, no início, havia resistência, ceticismo e muitas críticas à educação a distância. Ele próprio reconhece que tinha dúvidas, pois se tratava de uma experiência nova e ainda cercada de incertezas.

Na época, a referência mais próxima de educação a distância era a TV Educativa. O modelo inicial não dependia da internet como atualmente. Segundo o entrevistado, as aulas eram levadas em CDs ou mídias semelhantes, havia momentos presenciais, tutores para tirar dúvidas e uso de recursos simples, como quadros e flip charts.

Prof. César Pires relata que viajou várias vezes a Brasília para viabilizar o projeto e que a implantação exigiu superar barreiras técnicas, políticas e culturais. Embora houvesse ceticismo, havia também forte vontade de fazer o projeto acontecer. Ele menciona que o governador José Reinaldo Tavares participou do lançamento e que, anos depois, ao comemorar os 20 anos da iniciativa, sentiu forte emoção ao perceber a dimensão que o núcleo alcançou.

Para ele, o NEAD teve papel gigantesco na formação de pessoas e na ampliação do acesso ao ensino superior. A atual UemaNet é vista como resultado direto dessas bases iniciais.

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15. O Vestibular PASES e os cursos sequenciais

Durante a entrevista, o entrevistador menciona o Programa de Acesso Seriado ao Ensino Superior – PASES, criado no ano 2000 que adotou uma proposta semelhante à do Programa de Seleção Gradual (PSG), da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), e ao Programa de Avaliação Seriada (PAS), da Universidade de Brasília (UnB) — ambos modelos alternativos aos vestibulares tradicionais da época.

Também são mencionados os cursos sequenciais, que tinham duração aproximada de dois anos ou dois anos e meio e ofereciam formação superior específica, embora sem equivalência plena para continuidade em mestrado ou doutorado.

Prof. César Pires recorda especialmente um curso voltado para secretárias da UEMA, possivelmente na área de Secretariado Bilíngue. Segundo ele, a proposta era valorizar servidoras que já atuavam na instituição, muitas vezes com grande competência prática, mas sem formação formal específica. A iniciativa buscava reconhecer, qualificar e consolidar o vínculo dessas profissionais com a Universidade.

16. Primeira avaliação institucional da UEMA em 1998

Prof. César Pires relata que sua gestão realizou uma avaliação institucional baseada na escuta de alunos, professores e servidores. O processo teria utilizado amostragem e coleta anônima de opiniões por meio de formulários impressos, cujo resultado culminou em um livro.

Segundo ele, a avaliação serviu para confirmar percepções, identificar problemas, estabelecer metas e projetar caminhos futuros. O anonimato era importante para garantir liberdade de manifestação e evitar a impressão de perseguição ou favorecimento.

A avaliação institucional aparece, em seu relato, como uma tentativa de adotar uma base científica para a gestão universitária, utilizando dados e escuta da comunidade para orientar decisões.

17. Informatização, computadores e cabeamento de fibra óptica

A modernização tecnológica da UEMA é outro ponto forte da entrevista. Prof. César Pires relata que sua gestão recebeu apoio da área de planejamento estadual, especialmente do Prof. Celso Beckman Lago, a quem atribui papel importante no incentivo e na destinação de recursos para a aquisição de computadores.

Segundo ele, houve esforço para distribuir computadores não apenas em São Luís, mas também em campi como Caxias, Bacabal, Imperatriz e Balsas, todos carentes de estrutura tecnológica. A chegada de professores com mestrado e doutorado também contribuiu para mudar a mentalidade institucional, pois esses docentes passaram a enxergar os computadores como instrumentos necessários ao desenvolvimento acadêmico.

Prof. César Pires não recorda detalhes da implantação do primeiro site da UEMA, mas afirma que o processo ficou a cargo da área de planejamento. Também destaca que, em sua gestão, foi realizado o cabeamento de fibra óptica no Campus São Luís, interligando diferentes dependências, como Engenharia, Mecânica, Civil, Administração, Pedagogia e outras unidades. Ele situa essa implantação, aproximadamente, entre 1999 e 2000.

18. Interiorização da UEMA e criação de estruturas fora de São Luís

A interiorização é um dos temas centrais da entrevista. Prof. César Pires apresenta sua gestão como responsável por dar bases a campi, cursos e estruturas em diferentes municípios do Maranhão.

 

Santa Inês

Sobre Santa Inês, César Pires afirma que a criação do campus teve forte relação com solicitação do então governador José Reinaldo Tavares e com articulação local envolvendo Valdivino Cabral. O modelo adotado foi uma gestão tripartite, envolvendo UEMA, Prefeitura e a empresa Vale.

Segundo o entrevistado, a Prefeitura contribuía com estrutura física, apoio e servidores de apoio. A Vale participava da gestão e trouxe práticas organizacionais que influenciaram positivamente o funcionamento local. A professora Maura Cléia Araújo Silva, indicada nesse contexto, é lembrada como uma pessoa muito preparada e decisiva para o crescimento do Campus Santa Inês.

Ele afirma que, em Santa Inês, foi implantado o primeiro laboratório de informática da UEMA e que a unidade cresceu significativamente em cerca de 50 meses.

 

Açailândia

Prof. César Pires relata que Açailândia foi criada com metodologia semelhante à de Santa Inês, também com participação da Vale. Afirma que não chegou a inaugurar a unidade, mas que deixou suas bases estruturadas, sendo a inauguração realizada posteriormente no reitorado da Profa. Maria Eline Barbosa Oliveira.

 

Bacabal

Sobre Bacabal, ele menciona a aquisição de uma estrutura física e de um terreno, comprados por meio da fundação, com recursos do PROCAD e sem recursos diretos do Estado, segundo seu relato. Afirma que a estrutura foi adquirida de Zé Vieira, ex-prefeito de Bacabal, e que ali foram dados os primeiros passos para o funcionamento da unidade, inicialmente de forma modular.

 

Codó

Prof. César Pires explica que, como deputado estadual, não podia criar despesa para o Estado. Por isso, mesmo sendo sua a ideia de criar uma estrutura da UEMA em Codó, o projeto precisou ser encaminhado por meio de lei delegada ao governador José Reinaldo Tavares, em 2003.

Mais tarde, em 2009, quando assumiu a Secretaria de Estado da Educação, afirma ter contribuído para “humanizar” e efetivar o funcionamento da UEMA em Codó. Menciona também a atuação da UEMA em cursos de formação de professores e qualificação de terceiro grau, isto é, de ensino superior, na região.

 

Caxias e o curso de Medicina

Prof. César Pires reivindica participação direta na criação do curso de Bacharelado em Medicina no Campus Caxias. Relata que o processo envolveu longas articulações com nomes como Beatriz Andrade, Bastos Ramos, Euda Batista, Raimundo Vale, João de Deus e Márcia Marim.

Segundo ele, inicialmente havia inspiração em experiências de Cuba, com foco em atendimento domiciliar e medicina preventiva. Contudo, devido às exigências brasileiras, o projeto precisou ser adaptado a um currículo mais clínico e convencional.

19. Núcleo de Acessibilidade – NAU e inclusão de pessoas com deficiência

Prof. César Pires relata que sua gestão também deu origem a ações voltadas ao atendimento de pessoas com deficiência na UEMA. Ele associa essa motivação a uma experiência familiar, mencionando seu irmão mais novo, Carlos Henrique Santos Pires, que tem síndrome de Down.

Segundo o entrevistado, chamou a professora Marilda de Fátima Lopes Rosa e outras pessoas para iniciar uma ação institucional voltada à acessibilidade. O núcleo teria começado com outro nome e, posteriormente, evoluído para o atual NAU – Núcleo de Acessibilidade da UEMA.

Ele afirma ter visitado o NAU em 2026 e ficado impressionado com sua evolução. Destaca que o NAU não se limita ao atendimento de pessoas com deficiência física, mas também acompanha estudantes com transtornos e outras necessidades específicas. Para Prof. César Pires, o núcleo cresceu, formou corpo técnico qualificado e passou a desempenhar papel fundamental na inclusão universitária.

 

20. Restaurante Universitário, gratuidade e terceirização de serviços na UEMA

O entrevistado confirma que, em sua gestão, houve iniciativa relacionada à gratuidade do Restaurante Universitário. Segundo relato atribuído anteriormente a Joaquim Villanova, atual gerente do RU, e confirmado por Prof. César Pires, a gratuidade do RU teria sido consolidada durante sua administração.

Prof. César Pires também afirma que iniciou processos de terceirização de serviços, incluindo restaurante, limpeza ou áreas correlatas, além da segurança. Para ele, a terceirização permitia maior possibilidade de cobrança, pois os serviços passavam a ser regulados por contrato e licitação.

No caso da segurança, ele relata que antes havia apenas vigias da própria Universidade. Com a terceirização, afirma que houve melhora significativa no controle e na proteção do campus.

 

21. Ordenamento do espaço universitário

Prof. César Pires afirma que o muro de entorno do Campus São Luís também foi construído em sua gestão. Antes disso, segundo ele, havia uma estrutura mais simples, como alambrado, o que permitia circulação desordenada de pessoas e até entrada de animais de grande porte no campus.

A construção do muro gerou conflitos com moradores ou usuários do entorno, que interpretaram a medida como tentativa de impedir a passagem pela Universidade. O Prof. César informa que manteve portões de acesso e horários de fechamento, buscando organizar o trânsito sem eliminar completamente a circulação.

Ele relata que, na época, havia pessoas que colocavam bois dentro da área da Universidade e que, após o fechamento, um desses usuários reconheceu que havia perdido essa possibilidade, mas admitiu que a medida estava correta. Para Prof. César Pires, essa ação simbolizava a necessidade de coragem administrativa para ordenar o espaço público universitário.

 

22. Carreira na Polícia Militar do Maranhão

 

Além da trajetória universitária, Prof. César Pires relata sua atuação na Polícia Militar – PM do Maranhão. Afirma que ingressou em 1987, tendo sido aprovado em primeiro lugar. Na corporação, chegou ao posto de major e atuou durante muitos anos na área veterinária.

Ele se apresenta como fundador da Cavalaria e do Canil da Polícia Militar do Maranhão. Relata que, à época, havia muitas limitações, inclusive no cuidado alimentar dos animais. A experiência como médico veterinário foi decisiva para sua atuação na corporação.

Prof. César Pires afirma que foi chefe do setor de Veterinária durante vários anos, de 1987 até sua saída, em 2008. Posteriormente, reformou-se da Polícia Militar, explicando que, no meio militar, o termo correto é “reforma”, e não aposentadoria.

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23. Atuação na Assembleia Legislativa do Maranhão

Prof. César Pires também resume sua atuação como deputado estadual. Afirma ter exercido mandato por cerca de 20 anos, sendo 16 anos na oposição e apenas quatro anos como líder do governo, destaca que sempre procurou manter suas convicções e que nunca foi processado ou contestado judicialmente por sua atuação parlamentar.

Na Assembleia Legislativa, relata ter sido primeiro-secretário e responsável pela transferência da sede da Rua do Egito para o Rangedor, onde atualmente funciona a Assembleia. Menciona que guarda com cuidado a portaria que lhe delegou essa responsabilidade.

Também afirma ter criado ou contribuído para criar importantes estruturas da Casa, como:

• Escola do Legislativo;

• Biblioteca da Assembleia;

• Fundação da Assembleia;

• Museu da Assembleia;

• Ouvidoria da Assembleia, da qual teria sido o primeiro ouvidor.

Na biblioteca, recorda que iniciou o acervo com livros recebidos do então senador José Sarney, quando este presidia o Congresso Nacional. Também menciona ações de qualificação de servidores, incluindo cursos de atendimento, letramento e inclusão digital para os funcionários da Assembleia.

24. Atuação na Secretaria de Estado da Educação

 

Na área da educação estadual, Prof. César Pires menciona duas ações de grande relevância.

A primeira foi a valorização de servidores que haviam obtido curso superior, mas continuavam recebendo como profissionais de nível médio. Segundo ele, como secretário de Educação, promoveu a primeira grande regularização dessa situação, beneficiando os servidores.

A segunda foi a realização de seletivo meritório para professores contratados. Prof. César Pires relata que, em 2009, os professores contratados da rede estadual eram, em grande parte, indicados politicamente. Para mudar esse cenário, chamou o professor José Augusto, então reitor da UEMA, e solicitou a realização de um processo seletivo baseado no mérito.

Segundo ele, o resultado foi uma renovação de aproximadamente 75% do quadro de professores contratados, permanecendo apenas cerca de 25% dos que já estavam na rede. Para Prof. César Pires, essa foi uma medida importante para reduzir a influência política nas contratações e ampliar a qualidade do ensino.

 

25. Pessoas destacadas na memória do entrevistado

Ao ser perguntado sobre pessoas que gostaria de registrar na entrevista, Prof. César Pires destacou especialmente dois nomes.

 

Professor Raimundo Nonato Vale

Foi lembrado como pessoa de extrema confiança, que acompanhou César Pires em momentos importantes de sua trajetória. O entrevistado afirma que, quando assumiu a Secretaria de Educação, levou Raimundo Nonato Vale e o colocou como ordenador de despesas, tamanha era sua confiança nele. Segundo Prof. César Pires, muitos dos primeiros passos de sua gestão tiveram participação dele.

 

Professor Celso Beckman Lago

Foi lembrado como figura fundamental no apoio à modernização tecnológica da UEMA. Prof. César Pires o descreve como uma pessoa séria, íntegra, discreta e decisiva para a disponibilização de recursos que permitiram a aquisição de computadores e o avanço da informática na Universidade.

Outros nomes aparecem ao longo da entrevista como importantes em diferentes processos, entre eles Bastos Ramos, Maria Eline Barbosa Oliveira, Maura Cléia, Valdivino Cabral, José Reinaldo Tavares, Roseana Sarney, José Augusto Silva Oliveira, Raimundo Vale, João de Deus, Beatriz Andrade, Euda Batista, Márcia Marim e Marilda.

 

26. Marcas centrais de sua gestão na UEMA

Quando questionado sobre o que mais marcou sua gestão na UEMA, Prof. César Pires aponta especialmente:

• a realização de concursos públicos, sobretudo para docentes;

• a criação do primeiro mestrado da UEMA;

• a interiorização do PROCAD;

• a implantação do NEAD, atual UemaNet;

• a regularização e o reconhecimento de cursos;

• a estruturação de campi no interior;

• a melhoria do Hospital Veterinário;

• a modernização tecnológica;

• a construção de infraestrutura física, como o muro do campus e estruturas acadêmicas;

• a criação de ações de acessibilidade e inclusão.

 

Ele afirma que muitos docentes que continuam na UEMA, especialmente no CECEN, na Medicina Veterinária e no interior do Estado, ingressaram por concursos realizados em sua gestão. Segundo ele, em algumas áreas do interior, grande parte do quadro docente teria sido formada ou incorporada nesse período.

 

27. Visão sobre memória institucional

Um dos trechos mais significativos da entrevista ocorre quando Prof. César Pires reflete sobre a importância da memória. Ele afirma que a história pode ser cruel quando exclui pessoas, processos e contribuições. Por isso, considera importante o trabalho de registro que está sendo divulgado no Portal Memória da UEMA.

Para ele, o livro, o documento e o registro histórico têm a função de permitir que a sociedade esqueça sem perder definitivamente a informação, pois, ao esquecer, pode voltar ao registro e recuperar o conhecimento.

  1. Conselho às novas gerações da UEMA

Ao final da entrevista, Prof. César Pires deixa um conselho às novas gerações que continuam construindo a história da UEMA: valorizar a instituição.

Ele afirma que, em períodos anteriores, havia uma tendência de parte da comunidade universitária de criticar e diminuir a própria Universidade, em vez de reconhecer seus feitos. Para ele, é fundamental que estudantes, professores, técnicos e gestores reconheçam a importância da instituição que os formou e que continua produzindo conhecimento.

Prof. César Pires também defende que a Universidade é, por natureza, um produto inacabado, pois está sempre em transformação. Ela forma outro produto igualmente inacabado: o aluno. Por isso, o conhecimento deve ser compreendido como algo transitório, que exige estudo contínuo.

Seu conselho final pode ser sintetizado em duas ideias centrais:

Estudem continuamente.

Valorizem a instituição que ajudou a formar o cérebro de vocês.

Para ele, quando uma instituição é desvalorizada, também se enfraquece o reconhecimento da formação que ela oferece. Valorizar a UEMA, portanto, é valorizar a própria trajetória acadêmica, profissional e social de seus estudantes, servidores, professores e egressos.

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