- Home
- Memória Institucional: Entrevista com Apolinário
Memória Institucional: Entrevista com Apolinário
Entrevistado: Apolinário Costa Coelho
Relação com a história da UEMA: De funcionário da manutenção e motorneiro do histórico bondinho do campus a administrador do antigo Centro de Convenções, ele hoje é aluno do Curso de Filosofia do CECEN e servidor lotado no CCA/UEMA e tornou-se uma memória viva da universidade.
Biografia: Apolinário Costa nasceu em Rosário – MA e mudou-se ainda criança para São Luís, onde foi adotado por uma família que influenciou sua formação e lhe ensinou o ofício da carpintaria. Ingressou na então Federação das Escolas Superiores do Maranhão – FESM em 1980, tornando-se servidor da recém-criada Universidade Estadual do Maranhão – UEMA em 1982. Ao longo de mais de quatro décadas, atuou em diversos setores da instituição, destacando-se como um dos motorneiros do icônico bondinho da Cidade Universitária Paulo VI e pela contribuição à infraestrutura e ao funcionamento do campus. Após concluir os estudos por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), realizou o sonho de ingressar na própria Universidade onde trabalha em 2021, como estudante do curso de Filosofia, tornando-se uma representação de dedicação, perseverança e pertencimento à história da UEMA.
DADOS DA ENTREVISTA
Assunto: A operação do Bondinho da UEMA.
Categoria: Memória Institucional
Data da entrevista: 18 de junho de 2026.
Local: Entrevista conduzida presencialmente no CCA/UEMA, São Luís-MA.
Entrevistado: Apolinário Costa Coelho
Entrevistador: Getulio Vitorino de Assunção Junior (Chefe da Assessoria de Gestão de Dados Estratégicos – ASSGDE/UEMA)
O presente registro integra o PORTAL MEMÓRIA UEMA |dados.uema.br/portal-memoria
RESUMO DA ENTREVISTA
Biografia e Chegada à FESM
Nascido em Rosário-MA, de onde
herdou o sobrenome “Costa”, oriundo de sua mãe biológica. Mudou-se
para São Luís aos seis anos de idade após o falecimento de seus pais biológicos
onde foi adotado por uma família, residente na Avenida Beira Mar, no Centro da
capital maranhense, que foi determinante em sua vida. Aos 11 anos, iniciou trabalhando
na oficina de carpintaria de seu pai adotivo, aprendendo ofícios de marcenaria,
conhecimentos que viriam a ser úteis posteriormente para algumas atividades de
manutenção no campus.
A sua entrada na Federação das
Escolas Superiores do Maranhão – FESM ocorreu de maneira curiosa no dia 1º de
agosto de 1980. Seu pai adotivo desejava que ele seguisse a carreira militar,
comum entre os familiares, mas Apolinário recusou a imposição. Diante da
recusa, foi enviado à FESM com um bilhete de recomendação destinado ao então
prefeito do campus, Dr. Francisco Cordeiro Damasceno. Foi admitido inicialmente
como prestador de serviços para trabalhos externos como capina e manutenção na
área da Fazenda Escola. Pouco tempo depois, em 30 de dezembro de 1981,
testemunhou a transformação da FESM na Universidade Estadual do Maranhão – UEMA
sob o governo de João Castelo, sendo oficialmente efetivado no início de 1982.
A Era do Bondinho: Operação e Especificações Técnicas
A memória mais emblemática da entrevista está na operação do bondinho da UEMA, um sistema de transporte fundamental na época em que o asfalto se limitava à entrada do campus até onde hoje está situado o Curso de Ciências Biológicas – CCB/CECEN e as vias internas eram estradas de areia ou piçarra. Esse bonde, que integram a rica história do bonde da J.G. Brill Company em operação na Cidade Universitária Paulo VI entre 1978 e 1983, exigia precisão e cuidado constante. Apolinário assumiu a função de motorneiro (condutor do bonde) como substituto e parceiro de José Ribamar Alves da Silva, conhecido como Zeca, que lhe ensinou todos os comandos da máquina. Zeca operava no turno da manhã, enquanto Apolinário assumia o período da tarde.
O bonde era um maquinário robusto de aproximadamente dez toneladas, projetado de forma bidirecional que percorria uma linha reta de cerca de 1,3 km. O veículo não possuía volante tradicional, sendo controlado por um painel de alavancas e comandos analógicos. O sistema de marchas contava com três posições de condução, englobando a marcha à ré, o ponto morto e três velocidades de avanço. Para inverter o sentido da viagem ao chegar no final da linha, os operadores precisavam descer do bonde e virar fisicamente a “lança” localizada no teto do bonde, conectando-a novamente ao fio de alta tensão, um cabo elétrico aéreo que conduzia 600 volts em corrente contínua. O sistema de freios consistia em uma manivela rotativa, complementada por um freio de mão para estacionamento, enquanto curiosamente a buzina era acionada através de um pedal mecânico no chão da cabine, emitindo um som característico e não tão intenso quanto o de um trem convencional.
A manutenção do motor exigia lubrificação com certa periodicidade. A casa de força do bonde, chamada de subestação era localizada no terminal inicial, uma casinha próxima ao ponto final do UEMA/IPASE onde foi um posto de recarga de cartão de transporte. Lá também servia como depósito de insumos mecânicos. Apolinário realizava a lubrificação periódica do motor elétrico utilizando latas de graxa e caixas de estopa (fiapo), garantindo que as engrenagens suportassem o vaivém constante de alunos e servidores.
Vídeo de Allen Morrison do funcionamento do Bondinho da UEMA no Campus São Luís em 1980.
Rotas, Incidentes e o Fim de
uma era
A rota do bondinho conectava o
terminal principal, onde os ônibus da antiga empresa CETRACOL deixavam os
passageiros, até as áreas mais profundas do campus rural. O trilho passava por
pontos estratégicos até chegar ao final da linha, na região do Centro de
Ciências Tecnológicas – CCT/UEMA.
Conduzir cerca de dez toneladas
sobre trilhos no meio de um campus universitário causava situações às vezes de
perigo. Um dos episódios relatados por Apolinário envolveu um forte temporal.
Durante a chuva, um raio atingiu a rede elétrica nas proximidades, causando
curtos-circuitos e explosões de faísca ao longo do cabo elétrico do bonde. Para
preservar sua vida e a dos passageiros, Apolinário desligou o sistema
imediatamente e comunicou ao seu chefe de área, Carlos Alberto Vera Dias, que
não retomaria a operação até o dia seguinte, procedimento compreendido e
autorizado pela chefia devido ao risco naquela ocasião.
Outro incidente emblemático quase
resultou em uma tragédia no cruzamento de piçarra em frente ao prédio da
Agronomia. O renomado professor Ari Manoel Aguiar, conduzindo seu veículo,
tentou atravessar a via férrea antes da passagem do bonde que já estava em
movimento. O bondinho, lotado de alunos e pesando suas dez toneladas, possuía
frenagem de emergência difícil. Apolinário precisou acionar os freios ao máximo
para evitar a colisão, chegando a próximo do carro. Após o susto, foi
necessário engatar a marcha à ré para liberar a passagem do professor.
O encerramento das atividades do
bondinho ocorreu por volta de 1983. A manutenção do bondinho era realizada pelo
Instituto Tecnológico (atual Núcleo Tecnológico de Engenharia – NUTENGE/CCT) e à
época o principal mecânico responsável pela manutenção, um funcionário do
chamado Carmélio, ex-funcionário da Rede Ferroviária Federal S.A. – RFFSA, veio
a falecer. O maquinário apresentou defeitos em uma peça específica que só
poderia ser reposta através de fornecedores em São Paulo. Diante da falta de
interesse das gestões estadual e universitária em buscar a peça, o bonde foi deslocado
para o final do trilho, próximo à Fazenda Escola, marcando o fim do
funcionamento do bondinho na UEMA.
Evolução da Infraestrutura do
Campus Paulo VI
A visão de Apolinário sobre a
transformação do campus corrobora com os levantamentos do projeto Portal
Memória UEMA. Quando ingressou, em 1980, a Prefeitura do Campus, sob gestão do
Dr. Damasceno, funcionava onde hoje está instalado o 2º Juizado Especial Cível.
A Reitoria ocupava as instalações do PROINE (Programa de Irrigação do Nordeste)
onde hoje funciona o Programa de Pós-Graduação em Ciências Agrárias – PPGCIAG/CCA.
A estrutura da universidade era altamente autossuficiente e agrícola sendo que
a Fazenda Escola produzia farinha de macaxeira com fornos elétricos, produção
de leite e chegou a manter um sistema de biogás abastecido pelos dejetos do
gado da vacaria. O leite ordenhado no campus era enviado para a COPEMA.
O atual prédio de Letras funcionava
as operações da Embrapa. O Diretório Central dos Estudantes (DCE) funcionava
onde hoje se encontra o Centro de Ciências Biológicas (CCB), contando com uma
ampla área de vivência e bilhar, enquanto o Departamento de Educação Física
ocupava o espaço que hoje pertence ao DCE. Onde atualmente está construído o
Posto Médico, existia uma ativa oficina de carpintaria focada na reforma e
manutenção de carteiras escolares e portas.
Trajetória Profissional,
Superação Acadêmica e Legado
Após o fim do bonde, a carreira
de Apolinário diversificou-se dentro da UEMA. Ele assumiu a administração do
antigo Centro de Convenções, um espaço grandioso com capacidade para mil
cadeiras e dois auditórios nomeados em homenagem a Jacques Nadir Medeiro e
Jarbas Passarinho. Além de administrar a infraestrutura, atuou como
cinegrafista e operador de áudio, registrando incontáveis colações de grau e
eventos estudantis através de filmadoras de fita. Posteriormente, trabalhou no
Restaurante Universitário, gerenciando as fichas de acesso na época em que o
refeitório servia apenas oitocentas refeições diárias. Transferiu-se para o
Centro de Ciências Agrárias – CCA, onde permanece lotado há vinte e seis anos.
Uma parte importante de sua
história, trata-se de sua jornada educacional. Sem base escolar formal na
juventude, Apolinário obteve seu ensino fundamental acompanhando o Telecurso
2000 pela televisão no ano 2000. Em 2005, concluiu o ensino médio através da
Educação de Jovens e Adultos – EJA na escola José Justino Pereira do bairro
Cidade Operária em São Luís. Determinado a ser aluno da Universidade que ajudou
a construir, prestou o vestibular por onze vezes consecutivas. Ignorando
conselhos para desistir, foi aprovado no ano de 2021 para o curso de Filosofia
do CECEN/UEMA.
Apolinário na comemoração dos 50 anos do Curso de Agronomia do CCA/UEMA.
Legado
Com uma profunda sensação de
pertencimento, Apolinário planeja receber seu diploma numa colação de grau
realizada exatamente onde trabalhou durante anos, mas já com um novo Centro de
Convenções que se encontra atualmente em construção, encerrando um importante ciclo
no mesmo edifício que administrou com dedicação por anos, sendo um símbolo de
superação e determinação para quem acompanhou a sua trajetória.
PORTAL MEMÓRIA UEMA
© 2026, Assessoria de Gestão de Dados Estratégicos – ASSGDE/UEMA ılııl | Universidade Estadual do Maranhão – UEMA | ⏲︎ dados.uema.br/portal-memoria
Endereço:
Reitoria, Avenida dos Cavalos, Cidade Universitária Paulo VI, São Luís-MA





































